Uma pessoa pode passar a vida inteira tentando não se parecer com alguém que a machucou.
Pensa em um menino que cresce vendo um homem usar a raiva para intimidar, gritar e agredir. Ele aprende muito cedo que aquele comportamento causa sofrimento e decide que nunca será como ele. O problema é que, com o tempo, pode começar a desconfiar de tudo o que o faz lembrar daquele homem, inclusive de características que, por si só, não têm nada de errado.
Quando sente raiva, fica assustado consigo mesmo. Se percebe que está perdendo a paciência, tenta se controlar. Se precisa confrontar alguém, pensa duas vezes antes de falar. Ser firme começa a parecer perigoso, porque, na cabeça dele, existe o risco de acabar se tornando justamente aquilo que mais rejeita.
Anos depois, esse menino é um adulto que continua tentando provar que é diferente.
E o que acontece quando ele passa a vida inteira vigiando a própria personalidade?
O medo de se parecer com quem nos machucou
É possível que esse adulto seja uma pessoa intensa, que goste de resolver as coisas rapidamente, tenha opiniões fortes e se irrite quando alguma coisa sai do esperado. Só que, em vez de aprender a lidar com essas características, ele tenta escondê-las. Suaviza o tom de voz, evita conflitos, engole o que gostaria de dizer e, às vezes, permite que ultrapassem seus limites porque tem medo de parecer agressivo ao se posicionar.
Isso tem um custo.
A pessoa passa a gastar energia tentando controlar a própria reação antes mesmo de entender o que está sentindo. A raiva aparece e, junto com ela, vem a culpa. A vontade de confrontar alguém é acompanhada pelo medo de machucar. Até uma atitude simples, como dizer não, pode virar uma longa discussão interna.
Só que sentir raiva não faz de ninguém uma pessoa violenta. E ter uma personalidade forte não significa que alguém vá se tornar autoritário.
O problema não está necessariamente na característica que você tenta esconder, mas no significado que aprendeu a dar a ela.
Quando a firmeza ficou associada à violência, você pode ter dificuldade para reconhecer que também existe uma maneira saudável de se posicionar. Quando a raiva sempre esteve acompanhada de gritos e ameaças, pode ser difícil imaginar que ela também possa sinalizar que alguma coisa incomodou, que um limite foi ultrapassado ou que uma necessidade não está sendo respeitada.
E aí você tenta eliminar a emoção, quando talvez precise aprender a se relacionar com ela de outra maneira.
Quando a ansiedade também passa pelo medo de sentir
Tenho pensado bastante em como algumas pessoas se relacionam com as próprias emoções. Elas não sofrem apenas porque estão com raiva, tristes ou frustradas. Sofrem também porque acreditam que não deveriam estar sentindo aquilo.
A pessoa fica irritada e já se julga. Sente inveja e se considera ruim. Tem vontade de se afastar de alguém e começa a se culpar. Parece que toda emoção precisa passar por um tribunal antes de poder ser reconhecida.
E isso é exaustivo.
A ansiedade tem causas diversas, e não podemos reduzi-la a conflitos emocionais ou à tentativa de reprimir sentimentos. Mas vale observar o quanto a necessidade de controlar tudo, inclusive as próprias reações, pode aumentar a tensão no cotidiano.
Você consegue perceber que está com raiva sem se assustar com isso? Consegue admitir que alguma coisa incomodou você sem precisar se convencer de que está exagerando? Quando alguém ultrapassa um limite seu, você consegue se posicionar ou fica tão preocupada em não desagradar que acaba deixando a situação passar?
Essas perguntas não explicam todos os casos de ansiedade, mas podem abrir caminhos importantes de autoconhecimento.
Porque existe uma diferença entre aprender a regular uma emoção e passar a vida tentando impedir que ela exista. Na primeira situação, você desenvolve recursos para lidar com o que sente. Na segunda, vive em alerta, como se precisasse estar permanentemente de olho em si mesma.
E ninguém consegue descansar de verdade quando sente que precisa vigiar até os próprios pensamentos.

Compreender antes de tentar mudar
É por isso que, no meu trabalho, gosto de olhar para os estados emocionais com curiosidade, em vez de partir imediatamente da ideia de que precisamos eliminá-los.
Os Florais de Bach fazem parte dessa proposta de observação nos meus acompanhamentos. Não os utilizo como tratamento para transtornos de ansiedade, nem como substitutos de psicoterapia, avaliação psiquiátrica ou medicação quando necessária. Eles entram como um recurso complementar dentro de um processo de autoconhecimento, respeitando seus limites e sem prometer efeitos terapêuticos que não foram demonstrados cientificamente.
A essência Impatiens, por exemplo, é tradicionalmente relacionada à impaciência, à irritabilidade e à dificuldade de lidar com o ritmo das outras pessoas. Mas, quando observo essas características em alguém, não quero simplesmente transformar uma pessoa impaciente em alguém que nunca se irrita.
Quero compreender como aquela impaciência aparece, o que acontece quando ela não consegue fazer as coisas no próprio ritmo e como isso interfere nas relações.
Uma pessoa rápida não precisa deixar de ser rápida. Precisa aprender a conviver com quem tem outro ritmo. Alguém que sente raiva pode desenvolver maneiras mais seguras de expressá-la. E uma pessoa firme pode descobrir que consegue se posicionar sem precisar intimidar ninguém.
Não precisamos apagar características inteiras para amadurecer emocionalmente. Precisamos reconhecer o que fazemos com elas e assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas.
Você não precisa repetir uma história para carregar algumas das características de quem a viveu
Talvez a parte mais difícil seja perceber que podemos nos parecer com alguém em determinados aspectos sem repetir a maneira como essa pessoa viveu ou tratou os outros.
Você pode ter a intensidade de alguém que machucou você. Isso não significa que precise machucar também. Pode reconhecer em si uma impaciência que sempre criticou em outra pessoa e decidir aprender a lidar com ela. Pode ter herdado maneiras de reagir que hoje já não fazem sentido e começar, aos poucos, a construir outras respostas.
O passado ajuda a entender de onde vêm alguns dos nossos medos, mas não precisa determinar todas as nossas escolhas.
E tem uma coisa que considero importante: às vezes, na tentativa de sermos completamente diferentes de alguém, acabamos rejeitando partes legítimas de nós mesmos. Ficamos tão preocupados em não repetir os erros do outro que deixamos de descobrir quem poderíamos ser se não estivéssemos o tempo inteiro tentando provar alguma coisa.
Você não precisa se tornar uma pessoa sem raiva para deixar de ser violento. Não precisa abrir mão da sua firmeza para deixar de ser autoritário. E não precisa passar a vida tentando ser o oposto de alguém para construir uma história diferente.
Talvez o começo seja parar de perguntar o que você precisa eliminar de si e começar a investigar o que ainda não aprendeu a viver de uma maneira saudável.