Entenda a relação entre trauma, sistema nervoso e Florais de Bach a partir da minha experiência com uma tosse persistente e o floral Star of Bethlehem.
Existem sintomas que a gente passa anos tentando entender.
A gente vai ao médico, faz exames, testa tratamentos, muda alimentação, procura outras possibilidades. Às vezes encontra uma explicação. Às vezes encontra uma hipótese. E, em alguns casos, o sintoma simplesmente continua ali.
Foi assim comigo.
Eu tenho uma tosse há bastante tempo. Não é uma tosse que aparece necessariamente depois de comer, então nunca consegui estabelecer uma relação direta com algum alimento. Ela aparece em situações diferentes, como se a minha garganta fosse muito sensível e, em determinados momentos, reagisse.
E eu fui tentando entender o que era.
Passei por diferentes profissionais. Em determinado momento, ouvi que poderia ter relação com os brônquios, com o pulmão. Procurei um homeopata e fiz um tratamento direcionado para essa questão respiratória, mas não resolveu.
Também fui a um médico especialista em estômago, que trabalhava com acupuntura. Surgiu a possibilidade de refluxo, gastrite e outras questões digestivas. E, de fato, meu estômago é um pouco frágil. Só que aquela tosse não parecia ter uma relação direta com a comida.
Foi aí que comecei a investigar de outra maneira.
Não apenas tentando descobrir qual seria o tratamento para a tosse, mas tentando entender o que aquele sintoma poderia estar expressando dentro da minha própria história.
E se o trauma não for algo que a gente lembra?
Quando falamos em trauma, normalmente pensamos em acontecimentos muito grandes. Um acidente, uma violência, uma perda, alguma situação que conseguimos identificar claramente e dizer: “foi ali que aconteceu”.
Mas o trabalho de Peter Levine trouxe para mim uma compreensão diferente sobre o trauma.
Uma experiência não precisa parecer traumática para todo mundo para ser vivida como trauma por uma determinada pessoa. Existe também a maneira como aquele acontecimento foi experimentado pelo organismo, o que a pessoa conseguiu ou não conseguiu fazer naquele momento, se pôde reagir, fugir, se defender ou expressar aquilo que estava sentindo.
Porque o acontecimento passa, mas isso não significa necessariamente que a experiência tenha terminado dentro do corpo.
E isso me fez pensar em uma coisa muito importante: existem experiências que acontecem muito cedo na nossa vida e das quais nós simplesmente não temos memória consciente.
Talvez a nossa história comece antes mesmo de conseguirmos lembrar dela.
A minha história começou antes de eu ter memória
Eu nasci prematura, de sete meses, e passei os primeiros dois meses da minha vida dentro de uma UTI.
Para um adulto, uma UTI pode ser compreendida como um lugar de cuidado, tratamento e proteção. Mas, quando eu penso naquela experiência a partir do ponto de vista de um bebê recém-nascido, a sensação é completamente diferente.
Eu tinha acabado de sair de um ambiente quente, protegido e seguro, que era o útero da minha mãe. De repente, estava em outro lugar, sendo furada por agulhas, alimentada por sonda, manipulada e submetida a procedimentos que eu obviamente não tinha nenhuma capacidade de compreender.
Quando uso a palavra “tortura”, uso entre aspas porque sei que os profissionais estavam tentando cuidar de mim. Mas estou falando da experiência daquele bebê. Do corpo daquele bebê. Daquilo que ele poderia ter sentido sem ter nenhuma possibilidade de entender por que aquilo estava acontecendo.
E existe uma parte dessa história que ficou especialmente importante quando comecei a investigar a minha tosse: a garganta.
Por que a tosse começou justamente quando eu fiquei vulnerável?
A tosse começou em um período bastante específico da minha vida. Eu tive burnout, precisei me afastar do trabalho e, naquele momento, precisei entregar o controle da minha vida financeira exclusivamente ao meu marido.
Isso foi muito difícil para mim.
Durante bastante tempo, pensei que talvez a tosse tivesse alguma relação com autoridade. Eu comecei a fazer associações com a garganta, com a vocalização dos mamíferos, com o rugido, com essa manifestação de força, presença e competição. Passei anos pensando que talvez existisse uma raiva inconsciente relacionada àquela situação.
Talvez eu não aceitasse estar naquela posição. Talvez houvesse alguma coisa que eu precisava colocar para fora.
Essa era uma possibilidade que fazia sentido para mim naquela época.
Até que, em uma experiência de meditação e introspecção, aconteceu algo diferente. Eu tive acesso a uma imagem da UTI.
E algumas fichas começaram a cair.
Quando eu precisei entregar o controle financeiro da minha vida ao meu marido, eu fiquei vulnerável. E vulnerabilidade é uma coisa que eu tenho muita dificuldade de aceitar.
Foi como se aquela situação atual tivesse tocado em alguma coisa muito antiga. Não necessariamente porque uma coisa causou diretamente a outra, mas porque aquela experiência de vulnerabilidade encontrou, dentro de mim, uma sensação que o meu corpo talvez já conhecesse.
Um corpo pequeno, sem controle, sem poder decidir, sem poder falar, sem poder dizer “não quero”, sem poder expressar o que estava acontecendo.
Foi aí que a relação com a garganta começou a ganhar outro significado para mim.
Talvez a pergunta não seja apenas “o que está causando a minha tosse?”
Essa pergunta continua sendo importante. Sintomas físicos precisam ser investigados e eu mesma fiz isso.
Mas comecei a fazer outra pergunta também: o que essa tosse representa dentro da minha história?
Eu não estou dizendo que descobri a causa médica da minha tosse. Também não estou dizendo que toda tosse tem origem emocional ou que todo problema de garganta é consequência de um trauma.
Não é isso.
O que aconteceu comigo foi que, depois de procurar diferentes caminhos para compreender o meu sintoma, encontrei uma possibilidade que fazia sentido dentro da minha própria história.
Uma história que começou muito antes de eu ter memória, marcada por uma experiência muito precoce de vulnerabilidade. E, muitos anos depois, quando vivi novamente uma situação em que precisei abrir mão do controle, um sintoma apareceu.
Para mim, essa conexão foi importante.
O que os Florais de Bach têm a ver com essa história?
É aqui que entram os Florais de Bach, que fazem parte do meu trabalho.
Eu não trabalho com a ideia de que existe um floral específico para cada sintoma físico. Não existe, dentro da minha forma de trabalhar, “o floral para tosse”.
E, para mim, isso é justamente uma das coisas mais interessantes dos Florais de Bach.
Duas pessoas podem chegar com exatamente o mesmo sintoma e terem histórias completamente diferentes. Uma pode estar vivendo medo, outra pode estar passando por uma experiência de exaustão, outra pode estar tentando controlar tudo e outra pode estar lidando com uma experiência de trauma.
O sintoma pode ser parecido. A pessoa não é.
Por isso, quando comecei a olhar para essa história do trauma, uma das flores que passou a fazer sentido para mim foi Star of Bethlehem.
Na tradição dos Florais de Bach, Star of Bethlehem é associada a experiências de choque e trauma.
No meu caso, existe uma particularidade. Eu não tinha uma lembrança consciente daquela experiência da UTI. Eu acessei essa imagem posteriormente, durante um processo de meditação, introspecção e investigação pessoal.
Não foi alguém que me disse: “a sua tosse vem da sua UTI”.
Foi uma percepção que surgiu dentro do meu próprio processo.
E isso mudou a maneira como eu passei a olhar para aquele sintoma.
Eu não fui procurar um floral para a garganta
Eu fui olhar para a história por trás daquela garganta.
Essa diferença é importante.
Quando pensamos em sintomas, é muito natural procurar uma solução específica para aquilo que está incomodando. Se é dor de cabeça, queremos resolver a dor de cabeça. Se é insônia, queremos dormir. Se é tosse, queremos parar de tossir.
E precisamos, sim, investigar os sintomas.
Eu mesma procurei médicos, tratamentos e diferentes possibilidades.
Não estou defendendo que alguém deixe de procurar atendimento médico para investigar um sintoma físico. Muito pelo contrário. O corpo precisa ser cuidado e um sintoma persistente merece investigação.
Mas existe uma outra camada que também pode ser olhada: a história daquela pessoa.
O que estava acontecendo quando o sintoma começou? O que aquela pessoa estava vivendo? Havia uma situação de vulnerabilidade? Alguma experiência que não pôde ser expressada? Alguma coisa que precisou ser engolida?
Não significa que sempre vamos encontrar uma resposta.
E tudo bem.
A questão não é transformar todo sintoma em uma explicação emocional. É simplesmente permitir que essa possibilidade também exista quando fizer sentido.
Trauma, sistema nervoso e a história do corpo
É aqui que a compreensão do trauma pelo trabalho de Peter Levine encontra, para mim, uma conversa muito interessante com os Florais de Bach.
O trauma pode influenciar a maneira como percebemos determinadas situações, como reagimos a elas e como o nosso organismo responde às experiências. Mas isso não significa que exista uma receita pronta.
Duas pessoas podem passar por acontecimentos semelhantes e responder de maneiras completamente diferentes. Uma experiência pode ser profundamente marcante para uma pessoa e não ter o mesmo efeito para outra.
Por isso, eu tenho muito cuidado com afirmações do tipo “você tem esse sintoma porque passou por aquilo”.
Não temos como reduzir uma pessoa dessa maneira.
No meu caso, eu encontrei uma conexão que fez sentido para mim. A minha tosse me levou para a minha garganta. A garganta me levou para uma experiência de vulnerabilidade. E essa vulnerabilidade me levou para uma história muito antiga que eu sequer sabia que precisava olhar.
Foi essa investigação que abriu uma nova possibilidade de compreensão.
Talvez o sintoma também mereça ser escutado
Não porque precisamos romantizar a doença ou acreditar que todo sofrimento tem uma mensagem escondida.
Mas porque, às vezes, passamos tanto tempo tentando fazer o sintoma desaparecer que esquecemos de olhar para a pessoa que está vivendo aquilo.
No meu caso, eu procurei diferentes caminhos. Investiguei o pulmão, os brônquios, o estômago, refluxo, gastrite. Eu não abandonei essas possibilidades porque comecei a olhar para o emocional.
Eu apenas percebi que talvez existisse mais uma camada.
Foi quando comecei a olhar para a minha história.
Talvez essa seja a parte mais importante de tudo isso: não precisamos escolher entre cuidar do corpo e olhar para o emocional.
Podemos fazer as duas coisas.
Podemos procurar o médico e também olhar para dentro. Podemos investigar o físico e, ao mesmo tempo, nos perguntar se existe alguma experiência emocional que merece atenção.
Foi esse caminho que eu fiz.
E é justamente por isso que hoje, quando penso em Florais de Bach, não penso em uma lista de flores para sintomas. Penso em pessoas, histórias e experiências.
No meu caso, Star of Bethlehem entrou nesse processo como uma forma de olhar para uma experiência de trauma que eu acredito ter sido importante na minha história.
E esse processo ainda está acontecendo.
Eu não estou contando uma história com um final pronto. Estou contando uma história que ainda estou vivendo.
Talvez seja essa uma das coisas mais interessantes de olhar para o corpo com mais atenção. A gente não precisa ter todas as respostas imediatamente.
Às vezes, basta começar a fazer perguntas diferentes.
E talvez uma delas seja:
O que o meu corpo está tentando me contar que eu ainda não consegui ouvir?